“Coitadinho” - O Que Não Dizer a um Tutor de Pet Especial


Todos os dias tutores de pets especiais escutam comentários infelizes durante o passeio com seus cãodeirantes ou pets especiais. Passear com um pet especial chama bastante a atenção das pessoas, que geralmente reagem com o clássico “tadinho, o que aconteceu com ele?”. Claro, ninguém age na má intenção e a curiosidade das pessoas muitas vezes as dominam. Mas já pensou que a pessoa que passeia com o pet especial as vezes escuta essa mesma pergunta todos os dias? Imagina se sentir impelido a responder uma mesma pergunta todos os dias a estranhos que, curiosamente, te param na rua para perguntar porque seu cão está do jeito que está? Em certos momentos se torna cansativo, ainda mais quando o tutor do pet especial não está em um bom dia.

Qual o problema de falar “coitado(a)”? Pois então, o coitado(a) é muitas vezes um adjetivo que remete a estar refém de sua condição. Não a toa uma pessoa com deficiência ou um tutor com um pet especial fica extremamente irritado ao escutar este clássico. O pet especial não é refém de sua condição, muito pelo contrário, ele rapidamente encontra um jeito de se adaptar e ser feliz à sua maneira. Infelizmente é este olhar de “coitado” que faz com que as pessoas não acreditem que seja possível que um pet especial tenha uma vida feliz, com qualidade de vida. Este olhar do bicho que é incapacitado que faz com que eles muitas vezes nem sejam uma opção no momento da adoção. E nós queremos mostrar cada vez mais para as pessoas que os pets especiais não são “coitados”, são animais que só precisam de oportunidade e menos preconceito.

Mas o “tadinho”, que é o que o tutor de pet especial mais escuta, não é o pior que eles enfrentam. Tem comentários que as vezes são tão hostis que os tutores de pets especiais ficam sem palavras. No nosso caso com o Marrom, tivemos a pior situação que foi durante uma conversa de elevador com um vizinho, sobre a realidade do abrigo onde o Marrom vivia antes de ser adotado. Em certo momento o vizinho disse que queria adotar um cachorro e perguntou “mas tem algum bicho que não seja todo arrebentado?”, se referindo ao Marrom como um bicho arrebentado. Vou poupá-los da resposta que dei ao sujeito.


Aqui temos outros relatos de tutores de pets especiais:


Gabriela, tutora da Princesa

Princesa teve uma necrose de medula devido a um erro na cirurgia por causa de uma hérnia de disco e desde a cirurgia, já foi colocado na mesa que ela deveria ser eutanasiada mas como não sabíamos como ela iria ficar, eu escolhi pela vida dela! E por isto, já fui muito julgada.


Fiz um Instagram para divulgar a história dela e mostrar que um cachorro grande tetraplégico tem direito a vida como qualquer outro e os comentários “maldosos” disfarçados com “compaixão” já foram muitos. Infelizmente, ela tem uma sequela por causa da necrose nos olhinhos e já recebi muitos comentários falando que o olhar dela é triste, que era melhor ter sacrificado do que deixar ela nessa situação mas essas pessoas não convivem com ela para ver a felicidade que ela tem por receber nosso amor, por ser tão paparicada por mim, minha família e amigos!


Sou muito julgada por ter escolhido a VIDA em vez da morte mas eu faria essa escolha mil vezes se fosse possível porque ela já me salvou de uma depressão então eu nunca a abandonaria nem nos piores momentos!!


Converso com ela sempre e peço pra ela me mostrar sempre se ainda quer lutar e cada dia, ela me mostra que ainda quer lutar muito, que tem vontade de viver!


Suiane, tutora da Dafne

Desde quando adotei a Dafne a palavra “tadinha” virou rotina... no começo eu me irritava muito, hoje levo tranquilamente, até porque sei que a maioria das pessoas não falam com maldade, é muito mais algo cultural sabe? Quando vimos alguém ou algum animal numa situação difícil, seja relacionado à saúde ou situação social é o primeiro pensamento que no vem à cabeça... hoje os “tadinhas” para mim viraram mais uma brincadeira que qualquer coisa. O problema é a entonação como falam né?


Bom, a primeira vez que fomos aos shopping, Dafne ainda não tinha cadeira, já havíamos encomendado, mas pensamos “shopping, chão liso, não vai machucar, vamos passear!”. Fomos. Um homem subia a escada rolante com seu filho de, aproximadamente, 4 anos, ele não falou, ele gritou “olha lá filho, não tem as pernas”, eu fiquei tão brava. O shopping todo olhou pra gente, era um domingo então pense...


Em outra vez, no mesmo shopping, estávamos jantando e um casal de amigos passou. Dafne estava deitada no chão, perto de sua cadeira. A menina mostrou as duas: Dafne e Avelã e disse “olha que lindas” e o seu amigo falou “credo, parece cachorro morto”. Eu queria voar no pescoço dele, mas me controlei.


Em uma outra situação, no Parque Villa Lobos, Mariana (minha enteada) andando na frente com a Dafne. E eu atrás com meu esposo e a Avelã. Um homem aponta pra Dafne e fala “olha que cachorro estranho”. Bom, os “tadinhas” já não incomodavam mais né? Deixemos de lado o que ele ouviu após dar um sorriso banguela enquanto fazia chacota da minha filha.


Aleijada também é outra palavra que incomoda os tutores de pets cadeirantes. Sim, eu sei, se você olhar no dicionário é a simples realidade. Mas se você puder escolher outra palavra: cadeirante, talvez, o faça.


Mas também já quis abraçar uma mamãe e tirar uma foto com ela, me controlei porque meu esposo ia ficar muito envergonhado. Uma vez durante um passeio no shopping um criancinha de uns 5 anos fala para a mãe “olha mamãe, tadinha dela” e eu sorri, a mãe dessa criança fez um carinho na Dafne, abaixou ao lado da sua filha e falou “tadinha nada, olha como ela está feliz passeando com a sua família”... me emocionei na hora e agradeci a essa mãe tão sensata, educando sua filha com empatia e amor. Ahhh se todos fossem assim...

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©2020 por Giovanna Perdomo de Castro Paulo

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